quinta-feira, 30 de julho de 2026

Acordo ortográfico

 

Entrevista. Marco Neves: “O acordo ortográfico falhou e foi completamente inútil”

por Lusa,    16 Julho, 2026
Entrevista. Marco Neves: “O acordo ortográfico falhou e foi completamente inútil”
Marco Neves / DR

O professor e linguista Marco Neves considera que o Acordo Ortográfico (AO) “falhou” no objetivo de unificação da língua portuguesa, sendo hoje “completamente inútil” e criando tensões desnecessárias.

“Eu acho que o acordo acabou por falhar, e isso é a minha opinião, está aplicado em Portugal, sem dúvida, está aplicado no Brasil também, em alguns países africanos, mas falhou porque não criou uma unificação ortográfica, que era o seu grande objetivo”, afirmou, em entrevista à Lusa.

“Falhou porque, neste momento, temos Angola a usar a ortografia anterior, temos Portugal e Brasil a usar ortografias do acordo, mas também não são exatamente a mesma, portanto, não se fez uma unificação completa, e acabámos por ficar, na prática, com três ortografias. Aquela que é usada, por exemplo, em Angola, a que é usada em Portugal e a que é usada no Brasil”, acrescentou.

Para o professor e tradutor, a ortografia “nunca foi uma barreira” na comunicação entre os países falantes da língua portuguesa e mascara as verdadeiras dificuldades do mercado lusófono.

“O acordo foi vendido como uma forma de criar um espaço mais unitário, mas as verdadeiras barreiras à circulação de livros e de informação no espaço da língua portuguesa são barreiras alfandegárias, barreiras comerciais, não são barreiras ortográficas. Portanto, a minha opinião, é que foi completamente inútil”, disse.

Lembrou ainda que a ortografia sempre foi o ponto mais “estável” da língua.

“Foi um acordo só sobre ortografia, que por acaso é o ponto da língua mais estável e ao mesmo tempo também onde há menos diferenças, porque as grandes diferenças entre o português dos vários países, são no vocabulário, às vezes a sintaxe, […] os termos técnicos, aí também há bastantes diferenças”, salientou.

Autor de várias obras sobre linguística, Marco Neves dá o seu próprio exemplo numa recente viagem ao Brasil para o lançamento do livro “Queria? Já Não Quer?”, escrito com a ortografia portuguesa antiga, para referir que “ninguém se queixou”, e observar que as pessoas “sabem disso, sabem que há pequenas diferenças”.

Outro exemplo de que se socorre é o da língua inglesa, onde as duas ortografias [inglesa e americana] convivem pacificamente e todos continuam “amigos como dantes”. E o caso de Espanha “é também um bom modelo, com as várias academias a conversarem entre si” fazendo ajustes ao longo do tempo.

No caso da língua portuguesa, “é tudo muito mais ‘ad-hoc’. Cada país tem uma forma diferente de encarar a língua e as coisas não funcionam muito bem”. Com o AO “criou-se uma série de problemas e de tensões e de questões que são escusadas”, observou.

“Não nos podemos esquecer que o acordo foi feito numa época (1990) em que já tínhamos em Portugal e no Brasil também, com velocidades diferentes, uma taxa de alfabetização relativamente elevada, em Portugal aproximadamente 100%. Nos países africanos de língua portuguesa tínhamos situações muito diferentes, não só de alfabetização, mas também e principalmente da utilização da própria língua portuguesa”, lembrou.

Hoje há uma realidade diferente, mas cada país tem uma relação distinta com a língua oficial, desde a Guiné-Bissau “onde pouco se fala o português”, ou o caso de Angola, onde a língua portuguesa está em forte “crescimento”.

Outra reflexão feita por Marco Neves passa pelo crescimento da extrema-direita e pela “tendência em vários países para um maior nacionalismo”, algum fator de xenofobia, que pode levar em Portugal a um crescimento da ideia de que nos devíamos bastar a nós próprios e não ouvir os outros países de língua portuguesa.

“Cada país tem o seu ritmo, e isto talvez não seja neste momento algo visível, mas no futuro poderá acontecer algo do género”, admitiu.

Recordou a este propósito o que aconteceu na antiga Jugoslávia, onde “o nacionalismo linguístico” levou a que, cada uma das atuais nações tenha declarado uma língua diferente, “quando na verdade o croata, o sérvio, o montenegrino, o bósnio são a mesma língua”, afirmou.

“Com o andar dos anos pode acontecer algo parecido com a língua portuguesa”, alertou o professor e tradutor.

“Eu vejo muitas vezes, no discurso em Portugal, mesmo de pessoas que não estão associadas à extrema-direita, este quase desejo de que mais valia dizermos que o português é só nosso e que os outros, cada um deles, cria a sua língua e pronto”, disse.

Mas a “diferença” e a “variedade” da língua portuguesa são para Marco Neves caraterísticas que a valorizam e enriquecem.

Olhando para as “velocidades” da aplicação do AO nos vários países de língua oficial portuguesa, o linguista sugere que as Academias possam liderar uma reforma que seria desejável.

“A Academia das Ciências de Lisboa e a Academia de Letras do Brasil e dos outros países, as várias academias que existem, podiam ter aqui um papel para resolver o problema, no sentido de fazer reformas, isto iria implicar andar para trás em alguns pontos, assumir algumas das mudanças”, mas já que se fez o Acordo Ortográfico, pelo menos agora, “que se mude bem”.

Fonte: Comunidade, Arte e Cultura.

terça-feira, 30 de junho de 2026

ESPACIO DE CONSULTAS PARA ALUMNXS LIBRES

 

ESPACIO VIRTUAL DE CONSULTAS 
PARA LOS ESTUDIANTES REGULARES 
DE LA FACULTAD DE FILOSOFÍA Y 
LETRAS (UBA)

Primer Cuatrimestre 2026: Mesa de julio





 

 

Ø Encuentro programado por Google Meet. destinados especialmente a alumnxs libres:

 

10 DE JULIO 11 HS.



Ø Inscribirse para recibir enlace del encuentro hasta una hora antes del horario previsto:


https://forms.gle/pVAtpmAdoELma7Hg7


***


👉Próxima mesa de exámenes: Lunes 13/7 de 10 a 12 hs. (niveles elemental y superior) y 12 a 14 hs. (nivel medio). 


sábado, 23 de maio de 2026

LA GUERRA DE LAS MALVINAS EN LA LITERATURA DE CORDEL

 

“INGLATERRA E ARGENTINA EM GUERRA PELAS MALVINAS” : LA CRÔNICA PERIODÍSTICA EN LA LITERATURA BRASILEÑA DE CORDEL


Prof. Carlos A. Pasero

 

La literatura brasileña de cordel es homóloga de manifestaciones ya desaparecidas en otros países ("pliegos sueltos", "colportage", "chapbook", etc.). Entre la tradición folclórica y los medios de comunicación masivos, es sobreviviente de una práctica nacida entre los siglos XVI y XVII en Europa y que tenía como escenario de difusión, lo mismo que en el Brasil de contemporáneo, la plaza pública y el mercado.

 

En ese universo cultural, la literatura brasileña de cordel participa de un contexto mayor, la poesía oral, improvisada y cantada. La literatura brasileña de cordel surge a fines del siglo XIX. Hasta ese momento sólo se importaban y consumían folletos o pliegos sueltos de la literatura de cordel producida e impresa en Portugal. La disponibilidad, en el mercado de segunda mano, de pequeñas máquinas de imprimir desechadas por los periódicos del interior, hizo que muchos productores y vendedores de folletos iniciaran un proceso de "sustitución de importaciones" muy curioso, tal vez, sospechamos, relacionado con la carestía del producto importado o su desaparición.

 

Con epicentro en el nordeste del Brasil, la literatura brasileña de cordel se encuentra ya desparramada por casi todo el país. Algunos títulos significativos son: Batalha de Oliveiros com Ferrabráz de Leandro Gomes de Barros, Roldão no Leão de Ouro de João Martins de Ataíde, Brasil, Tricampeão do Mundo de Manoel d'Almeida Filho, Nascimento, Vida e Morte do Padre Cícero Romão de José Costa Leite, As Bravuras e Morte de Lampião de Antônio Francisco da Silva.

 

El texto que reproducimos a continuación, de especial interés para los argentinos, es un ejemplo de crónica periodística, uno de los tantos géneros diversos en los que se expresa la literatura nordestina impresa: “A Inglaterra e Argentina em Guerra pelas Malvinas” del poeta cearense, residente en Río de Janeiro, Gonçalo Ferreira da Silva (1937-2022).















quinta-feira, 12 de março de 2026

ESPACIO DE CONSULTAS

 

ESPACIO VIRTUAL DE CONSULTAS 
PARA LOS ESTUDIANTES REGULARES 
DE LA FACULTAD DE FILOSOFÍA Y 
LETRAS (UBA)

Primer Cuatrimestre 2026





 

 

Ø Encuentros programados por Google Meet. destinados especialmente a alumnxs libres:

 

16 DE ABRIL 16 HS.

30 DE ABRIL 18 HS.

8 DE MAYO 14 HS.



Ø Inscribirse para recibir enlace de cada encuentro hasta una hora antes del horario previsto:


https://forms.gle/AyUWmBwAUjz51dAe9



***


👉Próxima mesa de exámenes prevista (fecha y horario sujetos a cambios): Lunes 18/5 de 10 a 12 hs. (niveles elemental y superior) y 12 a 14 hs. (nivel medio). 


sábado, 22 de novembro de 2025

LIBRO LENGUA PORTUGUESA & COMPRENSIÓN LECTORA (2025)

 


Hola!!!

Los invitamos a leer, descargar y compartir el libro: Lengua Portuguesa & Comprensión Lectora.

Pueden acceder en el siguiente enlace:


https://archive.org/details/ebook-carlos-pasero-lengua-portuguesa-y-comprension-lectora-nov-2025/mode/2up



LENGUA PORTUGUESA Y COMPRENSION LECTORA (Pasero, 2025) reúne una serie de trabajos relacionados con la enseñanza de la lectocomprensión en lengua portuguesa a partir de conceptos tomados de la lingüística textual, la pragmalingüística y el análisis del discurso. Los capítulos se apoyan en marcos teóricos diversos para analizar géneros discursivos específicos como la crónica satírica y el ensayo académico en portugués. Entre otro aspecto, se insiste en la necesidad de enfoques didácticos basados en tareas interactivas y recursos multimodales para abordar los implícitos culturales y el conocimiento enciclopédico en el proceso de lectura.

quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Esta semana estreia ou estréia um novo filme? Entenda a regra ortográfica

Quais palavras perderam ou mantiveram o acento nos últimos anos? Evite erros comuns na escrita e leitura do português



Por Noslen Borges
20 nov 2025, 16h12

Fala, pessoas! Tudo certo?

Uma das coisas que mais gosto de fazer é assistir a um bom filme — seja em casa, com aquele conforto do streaming, ou numa grande sala de cinema aqui na minha cidade. E como vocês já sabem: eu enxergo a nossa língua portuguesa em tudo, até nas conversas mais despretensiosas do dia a dia!

Essa semana, falando com minha esposa sobre a estreia de Wicked II, nova produção da Disney baseada em O Mágico de Oz, surgiu uma dúvida que já escutei muita gente comentando: Afinal, o certo é “estreia” ou “estréia”? Não tinha um acento aí?

Entendendo a mudança: o que o Acordo Ortográfico diz

Vamos lá esclarecer essa questão de uma vez por todas!

O chamado último Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, implantado oficialmente em 2009 (sim, já tem quase 20 anos!), trouxe algumas mudanças na forma de escrever certas palavras. E uma dessas mudanças envolve os ditongos abertos “ei” e “oi” em palavras paroxítonas (aquelas cuja penúltima sílaba é a mais forte).

Essas palavras perderam o acento, mas mantiveram a mesma pronúncia.

Veja alguns exemplos:

Heróico Heroico
Jóia Joia
Colméia Colmeia
Estréia Estreia

Ou seja, “estreia” não tem mais acento, mas continua sendo pronunciada com a mesma tonicidade no “ei”. A palavra é uma paroxítona com ditongo aberto, e por isso a grafia antiga com acento foi abolida.

Você lembrava dessa regra?

Muita gente ainda chama esse conjunto de mudanças de “novo Acordo Ortográfico”, mas de novo ele não tem mais nada, né? 

Por isso mesmo eu prefiro chamar de último Acordo Ortográfico.

E aproveitando o gancho… você já foi assistir a The Wicked II

E aí, me conta: você é Team Elphaba ou Team Glinda?

Curtiu a dica?

Então compartilha com os amigos! E não esquece: toda terça e quinta-feira tem coluna nova por aqui.

Vamos que vamos! Professor Noslen Borges www.professornoslen.com.br

Fonte:https://veja.abril.com.br/coluna/na-ponta-da-lingua/esta-semana-estreia-ou-estreia-um-novo-filme-entenda-a-regra-ortografica/

terça-feira, 23 de setembro de 2025

PESAR POR EL FALLECIMIENTO DE GLORIA PÉREZ PITA (1959-2025)

 

Con profundo pesar, lamentamos informar el fallecimiento, este lunes 22 de setiembre, de Gloria Pérez Pitanuestra compañera de trabajo de muchos años en la Cátedra de Portugués de la Facultad de Filosofía y Letras, en donde se desempeñaba como Jefa de trabajos practicos, y en otros establecimientos de educación superior como el Instituto Santo Tomás de Aquino de San Martín.

Gloria tuvo una fuerte vocación docente que puso en práctica con dedicación y amor por la lenguas —era profesora en francés y en portugués, egresada del IES en Lenguas Vivas Juan Ramón Fernández de la Ciudad de Buenos Aires. Se había iniciado como profesora de Francés en 1982 y al finalizar este año tenía proyectado cerrar su carrera profesional al frente de cursos completando su jubilación en el nivel universitario.

Se destacó por su responsabilidad y su compromiso con la educación pública, con sus estudiantes y con las instituciones en las que le tocó actuar. La vamos recordar como una profesora entusiasta, siempre dispuesta a enseñar y a aprender, que deja una legado perdurable en la memoria de todos los que la conocimos y tratamos en la labor cotidiana. 


¡Gracias Gloria! ¡Descansa en paz!






segunda-feira, 15 de setembro de 2025

ENTREVISTA A ESTELA KLETT (FRAGMENTOS)

FRAGMENTOS DE UNA ENTREVISTA A ESTELA KLETT (2024)[1]


A continuación, transcribimos algunos fragmentos de la entrevista más extensa realizada por la Prof. Mónica Vidal a la Prof. Estela Klett, publicada en la revista Lenguas Vivas; recogemos aquí los pasajes en los que la investigadora y ex directora del Departamento de Lenguas Modernas de la FFYL-UBA comparte interesantes reflexiones sobre la situación actual de la enseñanza de las lenguas en el nivel superior.


(…)

 

Trabajaste muchos años en Filosofía y Letras en el Departamento de Lenguas Modernas, del cual fuiste directora. ¿Podrás hablarnos de esa experiencia? ¿Qué desafíos te planteó?

 

Sí, estuve en la dirección de Lenguas Modernas desde 1988 y por más de 30 años. Fue una experiencia extraordinaria que me enriqueció profundamente. Como las LE son transversales a todas las carreras de la facultad, el Departamento de Lenguas Modernas siempre manejó un enorme caudal de alumnos (variable según los años, pero siempre más del millar) y profesores (más de 60) de alemán, francés, inglés, italiano y portugués. Los desafíos que se plantearon fueron varios. En primer lugar, lograr la autonomía e independencia del Departamento, que hasta 1988 dependía de Letras. Eso se obtuvo enseguida y, a partir de ese momento, comenzaron proyectos de investigación avalados por la Secretaría de Ciencia y Técnica (SECyT). Se creó la cátedra de portugués (1989) y se fomentó el “aggiornamento” de programas y materiales para el dictado de los cursos. En esta etapa hubo seminarios dictados por especialistas nacionales y extranjeros y se promovieron reuniones de formación docente entre pares.

 

(…)

 

Un tema acuciante, que en el último año se ha puesto sobre el tapete, tiene que ver con el desarrollo de la inteligencia artificial y de los traductores automáticos, cada vez más afinados. ¿En qué medida sentís que estos dispositivos afectarán la enseñanza de la lecto-comprensión en lengua extranjera?

 

Aunque no he estudiado el tema en profundidad, diría que el nudo gordiano de este problema pasa por el correcto uso de la herramienta. Hay que observar ventajas y desventajas. Está claro que la inteligencia artificial es capaz de traducir en un instante nuestro mensaje escrito con un cierto grado de corrección. Puede incluso ponerle al mensaje escrito nuestra propia voz y la articulación perfecta de nuestra boca en el idioma deseado. Pero esta magia no debe confundirnos. Nada es comparable a hojear un libro en cualquier lado, seleccionar partes, leerlas y anotar lo que queramos. La IA no reemplaza cabalmente la comunicación cara a cara con otros que provienen de lenguas-culturas diferentes. Lo que se transmite a través de la utilización coordinada de lo verbal, lo vocal (entonación, tono, timbre) y lo visual (mimo gestualidad) hacen del encuentro algo único y maravilloso.

 

Más allá de este punto, ¿qué modificaciones propondrías para la enseñanza de lenguas extranjeras en la Universidad?

 

Me referiré a los casos de facultades que tienen requisitos de idiomas. Lo fundamental es tener presente para qué usará la lengua el alumno, o sea, los objetivos a alcanzar. Si se requiere que los alumnos lean bibliografías en LE durante su formación de grado, la lectocomprensión puede estar vigente. Hay que agregar un uso moderado y no exclusivo de las herramientas virtuales actuales. Si se quiere preparar al aprendiente para una beca internacional la lectocomprensión no es suficiente pues la oralidad (en comprensión y producción) resulta esencial. Ahora bien, es relevante saber qué número de alumnos viajará al extranjero y considerar si la propuesta es conveniente para quienes no participan de los flujos de la internacionalización de los estudios. Los postulantes a becas en el extranjero podrían complementar los conocimientos de idiomas logrados en el grado valiéndose de los cursos de extensión que ofrecen las unidades académicas.

 

(…)

 



[1] Vidal, Mónica. Estela Klett: “Amo mi trabajo y reivindico la profesión de profesor de lengua extranjera. No necesito vestirme de lingüista para tener credibilidad”. En: “El Lenguas”: Proyectos Institucionales. Presente y Pasado: Voces y retratos de docentes que dejaron huella. Suplemento de la revista Lenguas Vivas, n. 10, Julio de 2024, p. 42-47.

quarta-feira, 27 de agosto de 2025

“Não somos máquinas de fazer coisas”

 

Krenak: “Não somos máquinas de fazer coisas”

Liderança indígena e membro da Academia Brasileira de Letras revisita a história do “progresso” brasileiro e seu futurismo predatório. E explica por que faz uma “defesa contraditória” ao governo Lula, que lida com duas pedras no sapato na governança ambiental


Ailton Krenak em entrevista a Adele Robichez e Lucas Salum, no Brasil de Fato

O líder indígena, escritor e imortal da Academia Brasileira de Letras Ailton Krenak faz críticas ao modo como o conceito de progresso tem sido tratado no Brasil e no mundo. Em conversa com o BdF Entrevista, da Rádio Brasil de Fato, ele aponta que a crença generalizada de que a ciência e a tecnologia vão resolver os problemas criados pelo próprio modelo de desenvolvimento é uma armadilha perigosa.

“Me incomoda um pouco essa quase que automática adesão de muitos grupos sociais a uma ideia de participar do ‘show do progresso’, participar do ‘show do sucesso’, participar desse evento que promete que nós vamos continuar tirando o petróleo, que a gente vai continuar aquecendo a temperatura global e que a gente vai escapar disso com tecnologia, com ciência e tecnologia”, diz.

Autor dos livros Ideias para adiar o fim do mundo e de A vida não é útil, o pensador alerta para o risco de os seres humanos se tornarem “máquinas de fazer coisas”, condicionados à lógica produtivista.

“Se a gente não conseguir distinguir o joio do trigo, vamos continuar incidindo sobre o corpo da Terra com essa disposição cega de produzir coisas. Produzir, produzir… Como uma máquina de fazer coisas. E nós não podemos ser uma máquina de fazer coisas”, atesta.

Para o escritor, a lógica da produção e do consumo se tornou uma armadilha que aprisiona a humanidade em um ciclo de destruição. “Essa maquinaria toda vai instituindo um consumo de tudo, inclusive o consumo de nós mesmos. Vamos nos consumindo, uns aos outros”, projeta.

Proteger a vida para adiar o fim do mundo

Krenak vê com preocupação o avanço de medidas como o projeto em tramitação no Congresso, chamado “PL da Devastação”, que enfraquece o licenciamento ambiental, e a realização de leilões para exploração de petróleo, inclusive em territórios sensíveis, como a Foz do Amazonas. “Eu convoco as pessoas que ainda são capazes de se afetar com a ideia da vida no planeta para que nos voltemos para proteger a vida e isso não se basta nessa ideia de progresso e desenvolvimento”, diz.

Krenak lembra que o título de seu livro Ideias para Adiar o Fim do Mundo não foi escolhido por acaso, mas também não deve ser interpretado como um desejo de prolongar um mundo em colapso. “Se nós estamos perdendo a qualidade da vida no planeta, adiar a experiência aqui implicaria em buscarmos outros paradigmas, mudar a nossa própria ideia de que somos uma humanidade com ampla coincidência de propósito”, afirma.

Ele cita o alerta feito pelo secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, durante a última Conferência do Clima, como sinal do fracasso das atuais escolhas globais. “Se o secretário-geral da ONU diz que nós estamos marchando seriamente para o inferno, não sou eu que vou querer adiar essa experiência”, ressalta.

Na entrevista, Krenak também aborda temas como crítica contracolonial, memória, ancestralidade indígena, limites do atual governo e as formas de dominação que ainda sustentam a exploração da natureza e dos corpos.

Abaixo, confira trechos da conversa

Quero trazer alguns episódios recentes aqui no nosso território. Por exemplo, a ministra Marina Silva – uma voz incontestável na luta ambiental – foi hostilizada no Congresso Nacional. O mesmo Congresso que avançou com o chamado PL da Devastação, que acaba com o licenciamento ambiental. Ainda falta ser aprovado, mas está indo em frente.

E além disso, tivemos mais um leilão oferecendo áreas para se explorar petróleo, seja no mar ou também dentro do território. Frente a tudo isso, eu fico pensando que parece que o nosso país leu o seu livro e fez uma nova edição, com outro título: Ideias para adiantar o fim do mundo.

Ailton Krenak: Quando eu e meu editor concordamos em deixar o título Ideias para adiar o fim do mundo – que é uma frase extraída dos textos – pensamos no que essa ideia poderia induzir. Poderia até sugerir que o autor acreditava que este mundo está bom, tão bom que a gente quer adiar a duração desta experiência. Mas quando você aproxima a lente, vê que, na verdade, o que estamos pensando é restaurar alguns tecidos deste mundo, convocar quem ainda se afeta com a vida no planeta para cuidar do corpo da Terra.

Cuidar do corpo da Terra para além de consumir. Consumir, consumir, consumir o que se chama de “recursos naturais”. Esse é um erro cultural que nos afeta não só no Brasil, mas quase no mundo todo. Adiar o fim do mundo talvez seja pôr em questão o progresso, e principalmente a partir da pandemia, pôr em questão a utilidade de muitas coisas que nós investimos e fazemos, mas que só estão erodindo a vida no planeta. Se nós estamos perdendo a qualidade da vida no planeta, adiar a experiência aqui implicaria em a gente buscar outros paradigmas. Mudar a ideia de que somos uma humanidade com ampla coincidência de propósito, todos indo para o mesmo lugar.

Na última conferência do clima, o secretário-geral da ONU, António Guterres – arrasado com a ideia dos sheiks de continuar perfurando a Terra em busca de petróleo até 2050, quando só então pretendem iniciar a transição – disse: “Se seguirmos nessa batida, estamos caminhando celeremente para o inferno.” Ora, se o secretário da ONU diz isso, não sou eu que vou querer adiar essa experiência. Eu convoco as pessoas que ainda são capazes de se afetar com a ideia da vida no planeta a proteger a vida e dar um basta nessa ideia de progresso e desenvolvimento.

Eu confesso que me incomoda essa adesão automática de muitos grupos sociais a uma ideia de participar do “show do progresso”, ao “show do sucesso”, como se fosse um evento em que todo mundo vai continuar tirando petróleo, aquecendo a temperatura global – e, no final, a gente escapa disso tudo com tecnologia, ciência e inovação.

Estou preocupado com o efeito quase místico que ciência e tecnologia estão imprimindo no nosso modo de pensar o mundo.

Me incomoda ver a produção da agricultura familiar – especialmente aquela mais cara, feita com orgânicos – sendo colocada no balcão como se fosse commodity, como se pudesse competir com o agronegócio. Se a gente tiver mais máquina da China, se tiver mais tecnologia, também vamos performar de maneira impressionante, também vamos ter progresso.

Eu estou questionando o progresso em qualquer termo. Dentro da aldeia, no mercado de commodities, no show de produções do agronegócio – eu questiono isso.

Tem gente que aplaude o Brasil exportar grãos. Mas eu vejo como falta de entendimento: estamos exportando água, solo e trabalho mal remunerado. Ou a própria banalização do trabalho que produz alimento e bens que hoje se chamam “do agro”, que saem de dentro desse repertório de maneira oportunista, a ponto de dizerem que o guaraná dos Sateré-Mawé é pop, é o agro.

É tudo capturado por uma agência de publicidade ilimitada, que transforma tudo em produto. A produção dos quilombos, das aldeias, dos assentamentos rurais – vira tudo agro.

Se a gente não conseguir distinguir o joio do trigo, vamos continuar incidindo sobre o corpo da Terra com essa disposição de produzir coisas, como uma máquina de fazer coisas. E nós não podemos ser uma máquina de fazer coisas.

Como diz sua outra obra, A vida não é útil. Não é para isso que a gente tá aqui. Ailton, sobre essa ideia de desenvolvimento, eu fico pensando que ela foi profundamente incrustada no nosso país, especialmente no período da ditadura militar – sobretudo na região amazônica, com mega projetos como a Transamazônica, que se multiplicaram, embora muitos tenham fracassado ainda naquele período. Você acha que, desde a redemocratização, algum governo conseguiu romper com essa lógica desenvolvimentista, especialmente para a Amazônia?

Talvez a gente precise olhar um pouco antes do golpe militar de 1964. Talvez seja importante lembrar quando se instituiu uma dinâmica interna de modernização, com a transferência da capital do Rio de Janeiro para o Cerrado, para o Planalto Central do Brasil.

O grande herói dessa travessia foi Juscelino Kubitschek. O Brasil, profundamente incorporado à ideia dos Estados Unidos no esforço de reconstrução pós-guerra, se alinhou ao propósito de se tornar um pátio para montadoras de automóveis. E isso implicava fazer estrada.

É aquela pergunta: quem nasceu primeiro: o ovo ou a galinha? Quando o Brasil se alinhou com o propósito capitalista do império americano de reproduzir aqui no nosso território as experiências “gringas”, a gente se abriu à siderurgia, à indústria automobilística e à construção de estradas. O que a ditadura fez foi apenas se apropriar desse repertório modernista.

Juscelino escapou da crítica, porque muita gente o trata como uma espécie de “avatar”. Mas ele foi o mordomo do capitalismo que abriu a porta para que arrombassem nosso território, nossa economia, e introduzir aqui ideias modernistas, ideias tão avançadas que deixam a gente no passado.

A maneira de construir Brasília, aquele monumento impressionante, que deixava a América Latina olhando para a gente pensando: “Nossa, esse país de língua portuguesa é estranho mesmo, é todo moderno, é futurista. Ele vai deixar a gente para trás, os Andes, a Colômbia, a Bolívia, a Argentina. Todos ficaram com medo do “bafo jusceliniano”.

Só nós, brasileiros – e muitos historiadores brasileiros – não viram isso. Continuamos tratando Juscelino como se fosse insípido. Ele fez Brasília e não deixou rastro. Mas foi naquele período que a gente começou a fazer crescer a nossa dívida eterna, a nossa dívida externa, quando o Brasil começou a criar uma dívida monumental, construindo uma capital totalmente planejada.

Brasília empurrou povos como os Carajá e os Xavante para longe, e botou uma máquina de fazer modernidade no Planalto. Os servidores públicos passaram a sair do Rio para passar a semana em Brasília – até hoje temos essa farra de parlamentares e autoridades públicas que trabalham quatro dias na capital e o resto do tempo estão viajando por aí.

A gente normatizou um modo de governança artificial, onde as pessoas do serviço público estão acima da vida comum do cidadão. O cidadão é um pária, e os servidores se constituem em uma espécie de casta, com juízes e ministros ganhando R$ 600 mil ou R$ 1 milhão por mês.

Essa perversão não nasceu com a ditadura militar. O que a junta militar fez foi reunir todos esses elementos de “mau caráter” da transição agrícola brasileira para virarmos um país industrial a serviço do império. E fizemos isso durante a ditadura a rigor: arrebentamos com a Amazônia, enfiamos a Transamazônica e matamos todo mundo que estava no caminho e produziu um efeito contínuo de “progresso interno” à realidade do país.

O Brasil virou um laboratório de experimentos estrangeiros. Tanto que foi aqui que o uso de agrotóxicos se expandiu desde a década de 1970, ao ponto de hoje sermos o maior importador de venenos do planeta – e também o que mais usa, em volume aplicado por área.

Estamos envenenando os corpos d’água de superfície, as nascentes, os mananciais. Há quem diga que já estamos ameaçando até os aquíferos – bolsas subterrâneas de água no corpo da Terra.

Se estamos ameaçando até as águas subterrâneas com uma agricultura criminosa, eu me pergunto: por que o Brasil, como instituição, e o Estado brasileiro, como gestor do território, não pode interferir nesse processo, estabelecendo um limite. Recebemos veneno, pagamos por ele e ainda isentamos esses produtos de impostos.

Ailton, tudo isso me leva à próxima questão. É sobre a avaliação do atual governo, especialmente no que diz respeito à pauta ambiental. Essa mesma dupla, Lula e Marina Silva, esteve à frente no início dos anos 2000 e proporcionou resultados formidáveis no combate ao desmatamento. Houve reduções impressionantes, louváveis, e de certa forma isso se repetiu agora: também vimos números satisfatórios na redução do desmatamento, inclusive no Cerrado, que sempre foi um desafio. Mas, ao mesmo tempo, no ano passado, todo mundo ficou atônito com as fumaças e o fogo tomando conta do país – em regiões que nunca haviam queimado antes, e de forma brutal. Qual o desafio extra que essa mesma dupla – Marina e Lula – não está conseguindo superar? Por que não conseguem frear essa destruição ambiental que agora vem tomando outras proporções por meio do fogo, dos incêndios?

A gente não pode ignorar dois eventos de enorme relevância que aconteceram “no meio do caminho” – como dizia Drummond. Aliás, eu costumo dizer que Carlos Drummond de Andrade é meu escudo invisível. Algumas observações dele sobre o Brasil e os brasileiros funcionam como uma janela para enxergar certas questões.

A pedra no meio do caminho entre o primeiro e o segundo mandato do Lula, um desses eventos dramáticos, foi a pandemia.

A pandemia foi desorganizadora das forças da sociedade brasileira, coincidindo com o mandato de um grupo de pessoas que tomou o aparelho do Estado com o propósito de usá-lo contra a população brasileira, contra o território, como uma máquina de guerra.

Foi uma máquina contra a nossa possibilidade de nos organizar como sociedade, cindindo a sociedade entre bolsonaristas e petistas.

Outro fenômeno social da maior relevância nesse período foi o enfraquecimento de algumas práticas sociais que se organizavam em comunidades de base, herdeiros de um engajamento amplo dos católicos com a questão social, e a entrada dos evangélicos. É como se você tivesse duas bandas tocando. Saiu a banda que historicamente era afetada pela CNBB [Conferência Nacional dos Bispos do Brasil] da pastoral da terra, a pastoral indigenista, e entra uma trupe que é Silas Malafaia na cabeça: os fazendeiros, aqueles caras de chapelão. É o agronegócio incorporado em corpo e espírito, assaltando o poder político descaradamente, instituindo a bancada da Bíblia, da bala e do boi.

Se temos um assalto desse à vida brasileira e queremos que Marina e Lula possam estar de novo num lugar de representação democrática da vida brasileira… só se fôssemos muito ingênuos. Aquela gangue que passou antes destruiu o aparelho do Estado e entregaram um buraco para o Lula. Ou seja, elegemos um presidente a quem não é permitido governar.

Desde o primeiro dia, quando o Lula subiu a rampa com o Raoni, com outras lideranças, com aquela fé inabalável de que o Brasil ia dar certo – o “Brasil somos nós, os brasileiros” – eu assisti aquilo tudo com um pouco de desconfiança do excesso de otimismo. Otimismo demais faz mal à saúde. Deveria ter um aviso no pacote dos otimistas: “Cuidado: otimismo demais pode causar danos.”

Naquele caso, o festejo se estendeu até sermos surpreendidos por um assalto, um golpe, com aqueles ratos predando o corpo do aparato estatal, como se estivessem invadindo um país estrangeiro, com ódio, com raiva. Se pudessem, teriam destruído a estátua da Justiça, que foi rabiscada. Mas o desejo era quebrar. Assim como quebraram muitas outras estruturas simbólicas símbolos da República, do Congresso, do STF – uma banalização da violência sem qualquer propósito.

Alguém pode dizer que foi um caos. Outros dirão que foi uma reação popular. Mas agora, com generais no banco dos réus e o próprio articulador do golpe – o sujeito que ocupou o lugar de presidente da República – dizendo que “não viu, não estava lá”, que não se chama Genésio…

Mas essa podridão que tomou conta da vida política brasileira está impedindo o Lula de governar. Por mais que ele consiga performar na política internacional, quando aterrissa em Brasília, é sabotado. Sabotado por todo mundo, por toda aquela escória de gente que foi assimilada pela máquina de governo, e que muitos deles são bandidos. Os caras que estão à frente da Abin [Agência Brasileira de Inteligência], a maioria é de bolsonaristas delinquentes, criminosos. Eles ficaram lá, eles estão com emprego. Estão bem empregados para dar golpe. 

Temos um gabinete da presidência da República que não consegue investigar os funcionários do Estado que sabotam o governo. A gente só descobre depois.

Faço uma defesa contraditória do mandato da Marina e do Lula. Elegemos os dois para um mandato, mas foram bloqueados pela estrutura de poder para não governar. Por isso, nem consigo cobrar além do que eles estão entregando.

Tenho o maior respeito pela Marina. Sou solidário a ela diante de uma situação de rendição em um governo majoritariamente formado por empresários oportunistas, que transformaram tanto a Câmara dos Deputados quanto o Senado em aparelhos da direita.

Fonte: https://outraspalavras.net/outrasmidias/krenak-nao-somos-maquinas-de-fazer-coisas/