segunda-feira, 31 de agosto de 2026

POR QUE NÃO USAMOS "PERO"?

Mas eu quero mais!
Um dos grandes desafios para quem está aprendendo português é saber a diferença entre ‘mas’ e ‘mais’. Para piorar a vida do estrangeiro, as duas palavras, no Brasil, são, na maioria das vezes, pronunciadas como /máis/. Em espanhol, não há essa confusão: usa-se ‘más’ significando ‘mais’ e ‘pero’ valendo por ‘mas’. Ah, mas a explicação etimológica dessa lambança é o mas legal. Ops... mais legal.
Durante muito tempo, na época do português arcaico, usávamos ‘pero’ também. Aliás, a palavra ‘pero’ é registrada ainda hoje no português moderno, mas é mais desconhecida que o cantor Vinny.
Em latim (pai do português, do espanhol e de outras línguas latinas), usava-se a expressão ‘per hoc’, pronunciada /peróc/, que significava ‘por isso, portanto’. Na Retórica romana, era bastante usada em frases negativas, tomando o significado de ‘ainda que, porém’. Era mais ou menos como neste exemplo: “Ele parou de fazer sucesso, ‘per hoc’ tivesse talento.”
Então, lá pelo século XIII, por causa da pronúncia, ‘per hoc’ ficou aglutinado como ‘peró’ na península Ibérica, ficando ‘pero’ em português, espanhol, galego e outras mais. O sentido adversativo se consolidou no século XV: “Possuía o título de conde, pero o rei não assim o reconhecia” (uso grafia atual, só para ser mais didático😉).
Então, porque o ‘pero’ quase sumiu do português, mas permaneceu no espanhol?
A palavra ‘pero’ tinha o inconveniente de ser confundida com Pero (outra forma do nome Pedro, como, por exemplo, o famoso escrivão Pero Vaz de Caminha) e pero, o antigo nome da fruta pera. (Um pé de peras era chamado de ‘pereiro’.) Por isso, outra palavra acabou tomando seu lugar.
Em Portugal, havia surgido a palavra ‘poren’ vinda do português arcaico ‘por ende’, pelo latim ‘proinde’ (portanto). Esse ‘poren’ é a forma antiga do nosso atual ‘porém’, que não existe em espanhol. Por isso, ‘poren’ foi sendo mais utilizado e ‘pero’ acabou sendo interpretado como um espanholismo, um jeito de falar próprio dos espanhóis. ‘Pero’ foi então sendo abandonado.
Além disso, outro termo estava cumprindo bem a função de conjunção adversativa. O latim ‘magis’ (mais) já possuía significado ‘em maior quantidade’ ou dando a ideia de ‘oposição’. A palavra perdeu o G na evolução da língua ficando ‘más’ em espanhol, ‘ma’ em italiano e ‘mais’ em francês. No português arcaico (século XIII) havia as grafias ‘mais’, ‘mays’ e ‘mas’ todas com o mesmo significado.
Depois, já no século XV, as palavras estavam bem diferenciadas: ‘mas’ já valia para o sentido de ‘porém, contudo’ e ‘mais’, para ‘em maior quantidade ou maior intensidade’. Bem, o motivo dessa diferenciação, não sabemos ao certo.
O fato é que, agora, correlacionando português e espanhol, ‘mas’ = ‘pero’ e ‘mais’ = ‘más’. Eis uma boa confusão para os falantes dos dois idiomas, causadora de equívocos comuns nas traduções. Aí, meu amigo, não adianta apelar para o portunhol. São duas línguas muito parecidas, ‘pero no mucho’.

Referência: ‘Contribuição para o estudo diacrônico do “pero” no português’ de Danivia da Cunha Mattozo Wolff, nos ‘Anais da VI SEFVALE’ (2006) e ‘Como a conjunção "mas" derivou do Latim "magis"?’, na página ‘Stack Exchange’ (ago. 2016).

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RAFAEL RIGOLON
Professor de Ensino de Ciências na UFV e etimólogo. Publica no Facebook e no Instagram pelo perfil@nomescientificos

Fonte: https://www.facebook.com/NomesCientificos





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