domingo, 7 de julho de 2024

O CONTROLE SOCIAL AUTOMÁTICO

 

Assim age o controle social automágico

Viagem às entranhas dos aplicativos. Em suas múltiplas camadas, impõe-se a lógica do cognitivismo liberal. A captura do trabalho coletivo se faz em anestesia — por meio de constantes estímulos, recompensas e produção dirigida de dopamina

Nossa ambição final é transformar
a experiência Google como um todo,
tornando-a maravilhosamente simples,
quase automágica, porque compreendemos
o que você quer e podemos
entregá-lo instantaneamente”
(Larry Page, fundador do Google)


Cada vez mais é impossível estar em sociedade e viver a própria individualidade sem usarmos alguma mercadoria ou serviço digital. Para obtermos trabalho, entretenimento, serviços públicos, educação, compras, informação etc., agora precisamos de um dispositivo, sinal de internet e contas em plataformas como o Google, a Microsoft ou o Gov.br. Curiosamente, a maioria dessas maravilhas se apresentam como gratuitas, divertidas, inteligentes e muito sedutoras. Uma rápida conferida numa notificação pode virar muitos minutos de distração, onde plataformas, comerciantes e agentes políticos lançam mão de recursos envolventes que não percebemos nem temos controle. Mas como essa automagia funciona? Por que é tão difícil resistir a ela? Qual o seu propósito?


Após mais de 30 anos de pesquisas e debates sobre essas questões em todo o mundo, as respostas começam a se estabelecer. Para compreendê-las, devemos partir de onde tudo começa para nós usuários: as telas dos nossos dispositivos e aplicativos. Ao clicarmos nelas, acessamos uma camada abaixo dessas máquinas automágicas, onde vemos que elas são continuamente produzidas por cientistas, engenheiros, designers, psicólogos, marqueteiros, advogados, administradores e investidores capitalistas. Mas o que estes desenvolvedores desenvolvem?

Clicando nessa pergunta, somos levados a uma camada seguinte. Nela, os mais de 2,5 milhões de aplicativos disponíveis em lojas virtuais1 apresentam-se como ofertas desses desenvolvedores para nossas necessidades vitais (teleconsultas), psicológicas (pertencimento, individuação etc.), sócio-produtivas (trocar mensagens, educação etc.) ou sócio-culturais (jogar games, assistir filmes etc.) – sejam elas percebidas por nós e/ou sugeridas por eles.

Clicamos nessa imensa galeria de mercadorias e, numa camada abaixo, vemos que, embora o número de aplicativos denote a crescente variedade de desejos e necessidades humanas, a sua digitalização exige que os desenvolvedores criem modos padronizados para o seu consumo – o que eles chamam de design da experiência do usuário (UX, de user experience).

Ao darmos um zoom no design de UX, encontramos um conjunto de teorias que podemos chamar de cognitivismo neoliberal. Sem explicar que a principal causa da nossa vida corrida é a necessidade capitalista de extrair cada vez mais valor do trabalho social, o cognitivismo neoliberal ensina que, com toda essa agitação, nossas atividades digitalizadas devem ser cada vez mais simplificadas e gratificantes – caso contrário, os desenvolvedores podem perder o cliente para uma oferta concorrente2.

Um clique nessas simplificações e gratificações e somos levados camada abaixo para o que a psicologia comportamental chama de satisfação instrumental3. Nela, certas recompensas – sensações, experiências e memórias de satisfação mais ou menos relacionadas à necessidade em si – são provocadas nos usuários com a finalidade de motivá-los a adotar um comportamento previamente idealizado, como comprar, se engajar ou acreditar em algo. Segundo a neurociência4, o fluxo entre certos estímulos e recompensas presentes no design de UX pode estimular a produção de dopamina (o neurotransmissor da motivação), aumentando as chances de nos engajarmos nesse comportamento – mesmo que tenhamos outras razões para não fazê-lo. Mas como o design de UX realiza essa automagia?

Um clique nessa pergunta e descemos à camada que os desenvolvedores chamam de arquitetura de escolhas5. Trata-se da hierarquização da variedade de decisões que o usuário pode tomar durante o consumo de uma mercadoria ou serviço digital. Ela é inserida na programação e no design de UX principalmente através das affordances6 – a maneira possível de se fazer algo num aplicativo, como encontrar um par deslizando imagens de pessoas no Tinder. Como os próprios desenvolvedores explicam7, as decisões e atividades que eles precisam que o usuário execute (ceder dados, fazer compras etc.) são facilitadas, estimuladas e recompensadas (a satisfação instrumental). Já as decisões alternativas podem ser dificultadas, ou mesmo a sua escolha pode impedir esse consumo – em geral, você não consegue usar um aplicativo “gratuito” sem ceder dados. Mas por que não podemos fazer escolhas livremente?

Ao clicarmos nessa pergunta, descemos à camada do paternalismo libertário8, onde o cognitivismo neoliberal diz que muitas vezes nossas escolhas não são racionais e, por isso, precisamos de nudges (um empurrãozinho) dos desenvolvedores em direção a melhores decisões para nós mesmos. E por que precisamos ser paternalizados?


Um clique aqui e chegamos na camada onde somos tratados pelos desenvolvedores como previsivelmente irracionais9. Eles afirmam que somos assim porque temos vieses cognitivos, isto é, adotamos critérios e heurísticas emocionais e não-racionais, seja por preguiça, pressa ou para poupar esforço mental10. Por isso, os manuais de design de UX ensinam que a hierarquia e a apresentação de escolhas têm que evitar nos fazer pensar – momento que eles chamam de atrito na jornada do usuário11. Isso implica que certas decisões importantes (como ceder ou não dados pessoais) devem ser apresentadas para nós de forma simpática, discreta e prática – tudo para o nosso próprio bem.

Mas há um problema com o cognitivismo neoliberal. Quando outros cientistas tentam replicar os experimentos científicos que deram origem às suas teorias, muitos deles não chegam aos mesmos resultados. Esta é a chamada crise de replicação, que fez com que a PNAS, uma das mais prestigiadas revistas científicas de psicologia dos EUA, questionasse as bases científicas para muitas das afirmações do cognitivismo neoliberal12.

Então, ao clicarmos na crise de replicação, percebemos que o cognitivismo neoliberal não “descobre” o funcionamento das nossas mentes, mas tenta produzi-lo no design de UX, por exemplo através do chamado Modelo do Gancho13. Nesse modelo, os desenvolvedores querem que o consumo de suas ofertas se torne um hábito para nós, algo que fazemos sem pensar, como se fosse um tique14. Para isso, eles começam nos cercando com uma série de gatilhos, que são estímulos relacionados a necessidades psicológicas como reconhecimento, tédio, solidão etc. – por exemplo, através das notificações do WhatsApp. Como coceiras, esses gatilhos nos provocam desconfortos, até que possam ser “coçados” pelas ofertas dos desenvolvedores – como joguinhos de celular, redes sociais, notícias falsas etc. Mas se 97% dos aplicativos digitais são gratuitos15, o que os desenvolvedores querem em troca das suas habituações e coçadas?

Ao clicarmos nessa pergunta, chegamos ao objetivo do Modelo do Gancho. Nas palavras do seu criador, o psicólogo, designer de UX e investidor do Vale do Silício Nir Eyal, ao se habituar a uma mercadoria ou serviço digital, algo estranho ao consumo tradicional passa a acontecer: “o usuário faz um pouco de trabalho”. Mas de que tipo de trabalho Eyal está falando?

Agora, ao clicarmos em mais essa pergunta, somos transferidos da interface e da experiência do usuário para dentro dos hardwaressoftwares e sensores por trás delas – e sobre os quais pouco ou nada sabemos. Segundo os desenvolvedores, as atividades que essas máquinas automágicas nos sugerem (curtir, interagir, clicar, assistir, inserir dados etc.) existem na medida e na forma em que possam acionar coordenadamente duas “engrenagens”. A primeira quer atender às nossas necessidades – sejam elas do estômago (uma pizza pelo Ifood), ou da imaginação (as coçadas nas necessidades psicossociais no Facebook). Ocorre que, por sua vez, a segunda engrenagem é acionada pela primeira, e sua tarefa é codificar em dados digitais essas ações de consumo e seus resultados (o que pode incluir até sinais vitais que ocorrem nesses momentos)16.

Um clique nesses dados e somos direcionados para os Termos de Uso das mercadorias e serviços digitais “gratuitos” (que nunca lemos17), que geralmente ficam escondidos por perto daquele sugestivo botão “concordo”, e que precisamos clicar para poder usar esses aplicativos. Parte dos segredos das máquinas automágicas está lá, onde os desenvolvedores nos lembram que Gmail, Instagram, Tiktok, ChatGPT são softwares que pertencem a eles, mas que eles deixam você usar sem gastar dinheiro, desde que você ceda para eles a propriedade dos dados digitais que a sua atividade produziu no consumo dessas ofertas18. E por que os desenvolvedores precisam que você produza esses dados para eles?

Um clique nessa pergunta nos leva a outra camada, muito distante dos nossos dispositivos, que são os grandes bancos de dados de propriedade dos desenvolvedores – o chamado big data. Lá, nossos dados são combinados com dados de outras pessoas e coisas, para que poderosos computadores e seus algoritmos busquem padrões entre essas informações, como, por exemplo, os tipos de comportamentos que determinadas pessoas e grupos adotaram sob certos estímulos19.

Clicamos nesses padrões e vemos que, a partir das crenças do cognitivismo neoliberal, os desenvolvedores buscam recriar de forma automatizada e em grande escala alguns daqueles padrões na forma de estímulos para nos fazer repetir comportamentos previamente idealizados – assistir mais um stories no Instagram, responder à mensagem do chefe em qualquer horário, ou compartilhar desinformação20. Além disso, esses novos dados e seus padrões podem indicar possibilidades e tendências de futuro, que podem se realizar ou não, e que os desenvolvedores chamam de análise preditiva21. Mas o que eles querem prever?

Um clique nessas predições e vemos que, se certos indivíduos forem correlacionados a padrões de ocorrência de certas doenças, de modalidades de consumo ou de atitudes políticas, esses dados podem ser oferecidos seja para empresas de saúde e seguradoras para evitar custos, para comerciantes em busca de mais vendas, ou para forças políticas promoverem suas agendas. A análise preditiva nem necessita ser precisa, pois se ela influenciar o comportamento de pequenos percentuais de seus alvos, isso pode significar milhões de dólares22 ou votos23 a mais para os clientes de dados. E tudo isso também pode ser muito lucrativo para os desenvolvedores. Em 2023, o faturamento das empresas de corretagem de dados (data brokers) foi avaliado em US$ 280 bilhões24 e as sete maiores big techs do mundo valiam juntas US$ 10,6 trilhões25.

Um último clique nesses mercados trilionários e somos levados de volta ao nosso ponto de partida, as divertidas interfaces dos nossos dispositivos digitais. Agora, compreendemos que a aplicação contínua de gatilhos, coçadas e nudges algoritmicamente selecionados tem mais a ver com a busca por padrões que reduzam riscos, custos e tempos de acumulação de capitais do que a satisfação de nossas necessidades ou as melhores escolhas para o nosso próprio bem. Hoje, um grande acúmulo de pesquisas demonstra que esses recursos de satisfação instrumental, ao nos pôr a fazer o que não faríamos de outra forma, podem ser relacionados a exposição excessiva na internet26, a sofrimentos como ansiedade e solidão27, ao extremismo político28 e à infodemia29.

É por tudo isso que regulações como Marco Civil da Internet, Lei Geral de Proteção de Dados, certas propostas em torno da PL 2630/2020 (Lei das Fake News) e da regulação da Inteligência Artificial são importantes – apesar dos seus limites –, assim como a adoção de políticas públicas de educação midiática crítica. Nada disso, porém, virá como uma dádiva ou concessão de governos e empresas, mas sim pela conquista da ação coletiva organizada.

1 Segundo o site businessofapps.com há cerca de 2,56 milhões aplicativos disponíveis no mundo acessíveis pela Apple Store ou Google Play Store. Disponível em: <https://www.businessofapps.com/data/app-statistics/>. Acesso em: 09 mar. 2022.

2 Norman, Donald A. Design emocional: por que adoramos (ou detestamos) os objetos do dia-a-dia. Rio de Janeiro: Rocco, 2008.

3 McQuail, D. (1994). The rise of media of mass communication. In D. McQuail (Ed.), Mass communication theory: An introduction (pp. 1–29). London: Sage.

4 Lembke, Anna. Dopamine nation: Finding balance in the age of indulgence. Penguin, 2021.

5 Thaler, R. H.; Sunstein, C. R.; Balz, J. P. [2013]. Choice architecture. In: E. SHAFIR (Ed.). The behavioral foundations of public policy. Princeton: Princeton University Press. p. 428–439, 2016. Disponível em: <www.papers.ssrn.com/abstract=2536504>. Acesso em: 14 jun. 2023.

6 Kaptelinin, Victor. Affordances and design. Interaction Design Foundation, 2014.

7 Nodder, Chris. Evil by Design: Interaction design to lead us into temptation. Indianapolis: John Wiley & Sons, Inc., 2013.

8 Kniess, Johannes. Libertarian Paternalism and the Problem of Preference Architecture. British Journal of Political Science, v. 52, n. 2, p. 921-933, 2022.

9 Ariely, Dan. Previsivelmente irracional. Rio de Janeiro: Elsevier Brasil, 2008.

10 Kahneman, Daniel. Rápido e devagar: duas formas de pensar. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.

11 Krug, Steve. Don’t Make Me Think! A Common Sense Approach to Web Usability. Berkeley: New Riders, 2006.

12 Maier, Maximilian et al. No evidence for nudging after adjusting for publication bias. Proceedings of the National Academy of Sciences, v. 119, n. 31, 2022.

13 Eyal, Nir. Hooked: how to build habit-forming products. New York: Penguin, 2014.

14 Bentes, Anna Carolina Franco. Quase um tique: economia da atenção, vigilância e espetáculo em uma rede social. UFRJ, 2021.

15 Fonte: Statista.com. Disponível em: <https://www.statista.com/statistics/266211/distribution-of-free-and-paid -android-apps/>. Acesso em: 09 mar. 2022.

16 George, Gerard; Haas, Martine R.; Pentland, Alex. Big data and management. Academy of management Journal, v. 57, n. 2, p. 321-326, 2014.

17 Obar, Jonathan A.; Oeldorf-Hirsch, Anne. The biggest lie on the internet: Ignoring the privacy policies and terms of service policies of social networking services. Information, Communication & Society, v. 23, n. 1, p. 128-147, 2020.

18 Ver, por exemplo, os Termos de Serviço do Facebook. Disponível em: <https://www.facebook.com/terms.php>. Acesso em: 7/5/2023.

19 Castellano, Claudio; Fortunato, Santo; Loreto, Vittorio. Statistical physics of social dynamics. Reviews of modern physics, v. 81, n. 2, p. 591, 2009.

20 Lewandowsky, S., Ecker, U. K., & Cook, J. (2017). Beyond misinformation: Understanding and coping with the “post-truth” era. Journal of applied research in memory and cognition, 6(4), 353-369.

21 Siegel, Eric. Análise Preditiva: o poder de prever quem vai clicar, comprar, mentir ou morrer. Alta Books Editora, 2018.

22 Zuboff, Shoshana. A era do capitalismo de vigilância. Editora Intrinseca, 2021.

23 Bond, Robert M. et al. A 61-million-person experiment in social influence and political mobilization. Nature, v. 489, n. 7415, p. 295-298, 2012.

24 Maximize Market Research (2022). Data Broker Market: Global Industry Forecast (2022-2029). Disponível em: https://www.maximizemarketresearch.com/market-report/global-data-broker-market/55670/. Acesso: 24/6/2024.

25 Soma do valor de mercado das empresas Apple, Alphabet, Meta, Amazon, Jingdong e Alibaba. Fonte: FORTUNE (2024). GLOBAL 500. Disponível em: https://fortune.com/global500. Acesso em: 24/6/2024.

26 Harcourt, Bernard E. Exposed: Desire and disobedience in the digital age. Harvard University Press, 2015.

27 Gazzaley, A., & Rosen, L. D. (2016). The distracted mind: Ancient brains in a high-tech world. Mit Press.

28 Cesarino, Letícia. O mundo do avesso: verdade e política na era digital. São PAulo: Ubu Editora, 2022.

29 FERREIRA, João Rodrigo Santos; LIMA, Paulo Ricardo Silva; DE SOUZA, Edivanio Duarte. “Desinformação, infodemia e caos social: impactos negativos das fake news no cenário da COVID-19”. Em Questão, p. 30-53, 2021. 

segunda-feira, 27 de maio de 2024

RESULTADOS DE LAS PRUEBAS LIBRES DEL MES DE MAYO DE 2024



Para acceder a los resultados de las pruebas libres tomadas 

en la mesa del 13 de mayo del corriente consultar:


Blog del Departamento de Lenguas Modernas



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segunda-feira, 13 de maio de 2024

Olhos d’água - Texto e áudio

 

Áudio de Ludmila Lis


Olhos d’água

por Conceição Evaristo




Uma noite, há anos, acordei bruscamente e uma estranha pergunta explodiu de minha boca. De que cor eram os olhos de minha mãe? Atordoada custei reconhecer o quarto da nova casa em que estava morando e não conseguia me lembrar de como havia chegado até ali. E a insistente pergunta, martelando, martelando. De que cor eram os olhos de minha mãe? Aquela indagação havia surgido há dias, há meses, posso dizer. Entre um afazer e outro, eu me pegava pensando de que cor seriam os olhos de minha mãe. E o que a princípio tinha sido um mero pensamento interrogativo, naquela noite se transformou em uma dolorosa pergunta carregada de um tom acusatório. Então, eu não sabia de que cor eram os olhos de minha mãe?

Sendo a primeira de sete filhas, desde cedo, busquei dar conta de minhas próprias dificuldades, cresci rápido, passando por uma breve adolescência. Sempre ao lado de minha mãe aprendi conhecê-la. Decifrava o seu silêncio nas horas de dificuldades, como também sabia reconhecer em seus gestos, prenúncios de possíveis alegrias. Naquele momento, entretanto, me descobria cheia de culpa, por não recordar de que cor seriam os seus olhos. Eu achava tudo muito estranho, pois me lembrava nitidamente de vários detalhes do corpo dela. Da unha encravada do dedo mindinho do pé esquerdo… Da verruga que se perdia no meio da cabeleira crespa e bela. Um dia, brincando de pentear boneca, alegria que a mãe nos dava quando, deixando por uns momentos o lava-lava, o passa-passa das roupagens alheias e se tornava uma grande boneca negra para as filhas, descobrimos uma bolinha escondida bem no couro cabeludo ela. Pensamos que fosse carrapato. A mãe cochilava e uma de minhas irmãs aflita, querendo livrar a boneca-mãe daquele padecer, puxou rápido o bichinho. A mãe e nós rimos e rimos e rimos de nosso engano. A mãe riu tanto das lágrimas escorrerem. Mas, de que cor eram os olhos dela?

Eu me lembrava também de algumas histórias da infância de minha mãe.

Ela havia nascido em um lugar perdido no interior de Minas. Ali, as crianças andavam nuas até bem grandinhas. As meninas, assim que os seios começavam a brotar, ganhavam roupas antes dos meninos. Às vezes, as histórias da infância de minha mãe confundiam-se com as de minha própria infância. Lembro-me de que muitas vezes, quando a mãe cozinhava, da panela subia cheiro algum. Era como se cozinhasse ali, apenas o nosso desesperado desejo de alimento. As labaredas, sob a água solitária que fervia na panela cheia de fome, pareciam debochar do vazio do nosso estômago, ignorando nossas bocas infantis em que as línguas brincavam a salivar sonho de comida. E era justamente nos dias de parco ou nenhum alimento que ela mais brincava com as filhas. Nessas ocasiões a brincadeira preferida era aquela em que a mãe era a Senhora, a Rainha. Ela se assentava em seu trono, um pequeno banquinho de madeira. Felizes, colhíamos flores cultivadas em um pequeno pedaço de terra que circundava o nosso barraco. As flores eram depois solenemente distribuídas por seus cabelos, braços e colo. E diante dela fazíamos reverências à Senhora. Postávamos deitadas no chão e batíamos cabeça para a Rainha. Nós, princesas, em volta dela, cantávamos, dançávamos, sorríamos. A mãe só ria de uma maneira triste e com um sorriso molhado… Mas de que cor eram os olhos de minha mãe? Eu sabia, desde aquela época, que a mãe inventava esse e outros jogos para distrair a nossa fome. E a nossa fome se distraía.

Às vezes, no final da tarde, antes que a noite tomasse conta do tempo, ela se assentava na soleira da porta e, juntas, ficávamos contemplando as artes das nuvens no céu. Umas viravam carneirinhos; outras, cachorrinhos; algumas, gigantes adormecidos, e havia aquelas que eram só nuvens, algodão doce. A mãe, então, espichava o braço que ia até o céu, colhia aquela nuvem, repartia em pedacinhos e enfiava rápido na boca de cada uma de nós. Tudo tinha de ser muito rápido, antes que a nuvem derretesse e com ela os nossos sonhos se esvaecessem também. Mas, de que cor eram os olhos de minha mãe?

Lembro-me ainda do temor de minha mãe nos dias de fortes chuvas. Em cima da cama, agarrada a nós, ela nos protegia com seu abraço. E com os olhos alagados de pranto balbuciava rezas a Santa Bárbara, temendo que o nosso frágil barraco desabasse sobre nós. E eu não sei se o lamento-pranto de minha mãe, se o barulho da chuva… Sei que tudo me causava a sensação de que a nossa casa balançava ao vento. Nesses momentos os olhos de minha mãe se confundiam com os olhos da natureza. Chovia, chorava! Chorava, chovia! Então, porque eu não conseguia lembrar a cor dos olhos dela?

E naquela noite a pergunta continuava me atormentando. Havia anos que eu estava fora de minha cidade natal. Saíra de minha casa em busca de melhor condição de vida para mim e para minha família: ela e minhas irmãs que tinham ficado para trás. Mas eu nunca esquecera a minha mãe. Reconhecia a importância dela na minha vida, não só dela, mas de minhas tias e todas a mulheres de minha família. E também, já naquela época, eu entoava cantos de louvor a todas nossas ancestrais, que desde a África vinham arando a terra da vida com as suas próprias mãos, palavras e sangue. Não, eu não esqueço essas Senhoras, nossas Yabás, donas de tantas sabedorias. Mas de que cor eram os olhos de minha mãe?

E foi então que, tomada pelo desespero por não me lembrar de que cor seriam os olhos de minha mãe, naquele momento resolvi deixar tudo e, no dia seguinte, voltar à cidade em que nasci. Eu precisava buscar o rosto de minha mãe, fixar o meu olhar no dela, para nunca mais esquecer a cor de seus olhos.

Assim fiz. Voltei, aflita, mas satisfeita. Vivia a sensação de estar cumprindo um ritual, em que a oferenda aos Orixás deveria ser descoberta da cor dos olhos de minha mãe.

E quando, após longos dias de viagem para chegar à minha terra, pude contemplar extasiada os olhos de minha mãe, sabem o que vi? Sabem o que vi?

Vi só lágrimas e lágrimas. Entretanto, ela sorria feliz. Mas, eram tantas lágrimas, que eu me perguntei se minha mãe tinha olhos ou rios caudalosos sobre a face. E só então compreendi. Minha mãe trazia, serenamente em si, águas correntezas. Por isso, prantos e prantos a enfeitar o seu rosto. A cor dos olhos de minha mãe era cor de olhos d’água. Águas de Mamãe Oxum! Rios calmos, mas profundos e enganosos para quem contempla a vida apenas pela superfície. Sim, águas de Mamãe Oxum.

Abracei a mãe, encostei meu rosto no dela e pedi proteção. Senti as lágrimas delas se misturarem às minhas.

Hoje, quando já alcancei a cor dos olhos de minha mãe, tento descobrir a cor dos olhos de minha filha. Faço a brincadeira em que os olhos de uma são o espelho dos olhos da outra. E um dia desses me surpreendi com um gesto de minha menina. Quando nós duas estávamos nesse doce jogo, ela tocou suavemente o meu rosto, me contemplando intensamente. E, enquanto jogava o olhar dela no meu, perguntou baixinho, mas tão baixinho, como se fosse uma pergunta para ela mesma, ou como estivesse buscando e encontrando a revelação de um mistério ou de um grande segredo. Eu escutei quando, sussurrando, minha filha falou:

— Mãe, qual é a cor tão úmida de seus olhos?

Fonte:

https://www.escrevendoofuturo.org.br/conteudo/revista-digital/artigo/62/olhos-dagua

https://www.escrevendoofuturo.org.br/revista-digital/edicao/21/tantas-palavras-apropriacao-da-escrita-por-alunos-e-professores


AYÓ - Encontro Negro de Contação de Histórias - 4ª Edição

 

Origem: https://vimeo.com/509080699


sexta-feira, 29 de março de 2024

Volta ao mundo a bordo da palavra «pai»

 Volta ao mundo a bordo da palavra «pai»

Do passado do português ao persa

Começamos, claro, no nosso «pai». A sua origem é conhecida — com muitas paragens pelo caminho, terá vindo do «pater» latino. Ora este também veio de outros tempos — os linguistas conseguiram mesmo reconstruir a forma «*ph₂tḗr». Mas essa história já a contei aqui.

Avancemos pelo mar. Saímos de Lisboa, navegamos até ao Estreito de Gibraltar, entramos no Mediterrâneo.

À nossa esquerda, estendem-se terras onde «pai» é «padre» — ou também, começando ali na zona de Guardamar del Segura, «pare».

Do lado direito estão as costas de países onde a língua oficial é, entre outras, o árabe. Um das formas da palavra «pai» é, em árabe, «ʾab» — mas também podemos dizer «bābā».

O nosso barco avança veloz — aportamos a Malta. Já por lá andámos noutras viagens desta página e sabemos, por isso, que o maltês é uma língua da família do árabe. No entanto, muito do vocabulário tem origem italiana. Neste caso, «pai» é «missier». Como? Então nada de «papa», «baba» ou outros que tais? Donde vem esta palavra? Não parece nem árabe nem latina. Vem de «misseri», uma palavra do siciliano antigo relacionada com o italiano «messere», que terá vindo do occitano «meser», palavra irmã do «monsieur» francês… Ou seja, o «missier» maltês é primo do «monsieur» francês — mas o significado é «pai»!

O nosso barco está com vontade de viajar. O meu pai e eu sentimos o sal na cara e olhamos em frente. Já se vê a Grécia! Em grego antigo, «pai» era um familiar «patḗr» («πατήρ»). Hoje em dia, a palavra é «patéras» («πατέρας»).

Passando pelas ilhas gregas como que pelos pingos da chuva, aportamos na Turquia — onde «pai» é «baba».

A viagem pela Anatólia é feita por terra. Teria muito que contar, claro, mas dar uma volta ao mundo em poucos minutos exige que avancemos. Passamos, sem grande dificuldade, a fronteira entre a Turquia e o Irão e ficamos a saber que, por lá, a palavra pode ser «bâbâ» — o que lembra o turco, é certo — mas é, antes de mais, «pedar». Ao contrário do turco, o persa é uma língua indo-europeia — este «pedar» está próximo do latino «pater», do grego «patḗr» ou do germânico «*fadēr» (os germânicos substituíram o «p» pelo «f» em muitíssimas palavras).

Do persa ao futuro do português

O meu pai e eu estamos a conversar sobre estas velhas palavras num café de Bandar-Abbas, que os comerciantes portugueses também conheciam como Cambarão. Estamos encostados ao Estreito de Ormuz. Fazemo-nos ao mar. Já não temos muito tempo…

Atravessamos todo o Oceano Índico e aportamos na Indonésia. Neste arquipélago, encontramos muitas línguas. A língua oficial é o indonésio, estreitamente relacionado com o malaio (o indonésio e o malaio são, no fundo, duas normas da mesma língua). Por aqui, «pai» é «bapa». O curioso é perceber a forma do plural: «bapa-bapa». Parece lógico, não parece?

Avançamos — que ainda nos falta mais de meio mundo e o artigo tem de acabar! Atravessamos o Pacífico até ao Havai, onde encontramos — para lá do mais conhecido «father» — a forma «makua kāne», que tanto dá para «pai» como para «tio»… Se dermos mais um salto e chegarmos ao continente americano sem sair dos EUA (a viagem faz-se agora de avião), ficamos a saber que em navajo a palavra pai é «azhéʼé».

Esta palavra faz parte da frase «shizhéʼé tʼáá ákwíí jį́ naalnish», que significa «o meu pai trabalha todos os dias» (encontrei-a no Wikcionário). É uma frase bem verdadeira, pelo menos no que toca ao meu pai — mas tem um problema: onde está a palavra «azhéʼé»? «Naalnish» é o verbo «trabalhar». «Tʼáá ákwíí jį́» significa «todos os dias». Sobra «shizhéʼé» — que é, de facto, a forma do possessivo da primeira pessoa singular de «azhéʼé». Ou seja, «shizhéʼé» é «o meu pai». É estranho, não é? Uma palavra que se flexiona no início? Ora, basta imaginar o português daqui a uns 2000 anos, depois de muita pancada fonética. Nessa língua do futuro, tão distante de nós como o latim, não é impossível que as formas da palavra «pai» sejam algo como «mpai», «tepai», «sepai» («o meu pai», «o teu pai», «o seu pai»). Sabe-se lá!…

A volta ao mundo ainda não acabou. Saímos do porto de Nova Orleães e aportamos em Curaçau, onde descobrimos que «pai» é «tata» em papiamento (a língua de que falámos por aqui há uns tempos).

Por fim, o nosso barco chega a Lisboa vindo de ocidente, depois de atravessar o velho oceano. É então que ouvimos de novo a palavra que nos fez partir nesta volta ao mundo: «pai».

Feliz Dia do Pai a todos os pais — mas (espero que compreendam) em especial ao meu pai…

Marco Neves
Docente na NOVA FCSH e investigador no CETAPS. É tradutor desde 2002 e autor de vários livros sobre a língua portuguesa e a linguagem humana. Escreve regularmente no SAPO 24 sobre temas linguísticos e mantém a página Certas Palavras (www.certaspalavras.pt).

Foto de destaque: Foto de Ante Hamersmit na Unsplash

Fonte: https://observalinguaportuguesa.org/volta-ao-mundo-a-bordo-da-palavra-pai/


sexta-feira, 15 de março de 2024

LÍDIA JORGE

 

Lídia Jorge terá uma cátedra numa universidade brasileira

São Paulo, 08 mar 2024 (Lusa) – A Universidade Federal brasileira de Goiás terá uma cátedra em homenagem à escritora portuguesa Lídia Jorge, anunciou hoje o Camões – Instituto Cultural Português de Brasília, num comunicado.

O anúncio, feito no Dia Internacional das Mulheres, destacou que esta será a primeira cátedra da rede Camões no Brasil a homenagear uma escritora.

Lídia Jorge estará presente, no dia 19 de março, no lançamento da cátedra, para promover os estudos na área e estabelecer intercâmbio entre estudantes, investigadores e autores, lê-se no comunicado.

O embaixador de Portugal no Brasil, Luís Faro Ramos, citado no comunicado, considerou que o lançamento da cátedra em homenagem a Lídia Jorge “coroa um ano muito especial para Portugal”.

“Em 2024 vamos celebrar os 50 anos da Revolução dos Cravos, em 25 de abril, e os 500 anos do nascimento do nosso grande poeta, Luís Vaz de Camões. E tenho certeza de que essa Cátedra dará belos frutos, no próximo futuro”, considerou o embaixador.

Poeta, contista e romancista, Lídia Jorge iniciou a sua carreira com o romance “O Dia dos Prodígios”, em 1980. Ao longo dos anos, foi galardoada com vários prémios, incluindo o Grande Prémio de Literatura em Línguas Românicas da FIL (2020) e o Prémio Médicis Estrangeiro (2023).

 “Destacam-se, em sua obra de ficção, temas como o passado colonial e ditatorial; as tensões entre a sociedade moderna e pós-moderna; a condição feminina e a emigração”, salientou o professor da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Goiás (UFG) Rogério Max Canedo.

Os livros de Lídia Jorge estão traduzidos para diversas línguas, como alemão, galego, búlgaro, castelhano, esloveno, grego, francês, hebraico, húngaro, italiano, holandês, romeno, sueco e inglês, entre outras.

CYR // MLL – Lusa/Fim

segunda-feira, 4 de março de 2024

EDUARDO LOURENÇO SEGUNDO MIGUEL REAL

 

Eduardo Lourenço e Os Lusíadas

EDUARDO LOURENÇO E OS LUSÍADAS

Miguel Real

 Eduardo Lourenço: Uma Visão de Portugal

Em 1949, Eduardo Lourenço (EL), em Heterodoxia I, seu primeiro livro, tem uma frase absolutamente demolidora do então estado da culturva portuguesa: “o mundo da cultura portuguesa arrasta há quatro séculos uma existência crepuscular”. Assim, o caudal de conhecimentos que tínhamos erguido com a empresa dos Descobrimentos “perdeu tudo o que tinha de vivo e prometedor, para conservar apenas o comentarismo ruminante estéril”. Porém, e paradoxalmente, a cultura portuguesa dos últimos 300 anos fora edificada por todos aqueles que, em contacto com as manifestações culturais superiores da Europa (o Liberalismo; o Positivismo e o Socialismo de Antrero), tinham criado uma obra pessoal conflituadora com a mentalidade dominante do Estado, da Igreja e do Ensino. Este raciocínio do jovem EL muito devia à lição de António Sérgio. O que já não acontece trinta anos depois, quando publica O Labirinto da Saudade, em 1978, livro crítico de Sérgio.

Em O Labirinto da Saudade, EL faz publicar o seu artigo de 1969, em O Tempo e o Modo, “Sérgio como mito cultural”, que evidencia filosoficamente a intrínseca constitutividade débil da razão. Com este artigo, o iluminismo pombalino, o positivismo republicano e o racionalismo forte da primeira metade do século XX, que, com Sérgio tinha elevado a razão a fortaleza epistenológica da Verdade, soçobravam às mãos de uma concepção perspectivística e instrumental de razão e de verdade: é o relativismo ético da democracia a anunciar-se. É com EL que, em Portugal, a Razão, acossada pelos estudos epistemológicos, psicanalíticos e linguísticos, perde o privilégio de um superior instrumento de conhecimento. A partir deste artigo, os estudos sobre a razão em Portugal desenvolverão uma teoria fraca ou fragilizada de razão: Fernando Gil, Manuel Maria Carrilho, Boaventura de Sousa Santos, José Gil, José Mattoso,Viriato Soromenho-Marques, António Damásio.

Bastaria aquele capítulo de O Labirinto da Saudade. Psicanálise Mítica do Destino Português para tornar este um livro admirável, vocacionado para ser acolhido na história do pensamento em Portugal. Porém, então, como hoje, todas as atenções se centraram no capítulo que dá nome ao livro. Foi como se, nele, os portugueses se vissem despido, sem a envoltura dos ouropéis ideológicos, mirando-se frágeis, menores e diminuídos ao espelho de si próprio e da Europa. É um dos pouco livros publicados no último quartel do século XX que ficará na história da cultura portuguesa. 

Segundo EL, temos historicamente caminhado num espaço conflitual entre o modo como somos e o modo como nos imaginamos ser. Existe, portanto, na mente de cada português, uma desproporção, uma clivagem, melhor, um duplo estado de espírito em que cada um sente o que ontologicamente é (pequeno país, pobre e carenciado país, recursos limitados, baixa qualidade de vida, forte ruralismo tradicional, incipiente indústria, frágil organização financeira nacional, hábitos passadistas, tecnologia nacional infíma) e o que imageticamente lhe é dado ver através da leitura da história pátria (o mito dos Descobrimentos, a aventura da Expansão Ultramarina, o sonho do Quinto Império, o desejo do progresso antevisto na Europa iluminista e positivista, a quimera de um Estado imperial uno, do Minho a Timor, e do seu contraponto socialista-comunista, o Estado solidário e igualitário dos trabalhadores salvadores do mundo). É a esta dupla consciência que tem animado a maioria dos portugueses, sintetizada na diferença imaginária, em cada época histórica, entre a realidade e a ficção, que E. L. designa por “o irrealismo prodigioso da imagem que os portugueses fazem de si mesmos”. Este “irrealismo”, esta “forma mentis” de ser português, condição histórica permanente de Portugal, tanto tem arrastado Portugal para o maior dos miserabilismos culturais (o espírito decadentista entre os séculos XVII e XX) como para a crença de que somos por condição e destino um povo eleito, por vezes adormecido, mas sempre virtualmente preparado para lançar as “novas naus” da civilização. Esta “forma mentis” portuguesa, é designada por EL como de tipo “traumático”, ao modo psicanalítico, querendo com isso dizer que algo na nossa cultura nacional sofreu de fortíssimas perturbações civilizacionais que lhe recalcaram a possibilidade de uma vivência integrada na normalização média da existência europeia. Ser sempre mais ou menos, tudo ou nada, superior ou inferior, vanguarda ou proscrito, princípe ou gáfaro, não é, sejam quais forem os padrões epocais de estandartização dos comportamentos, um modo habitual de vida. 

(...)

PARA CONTINUAR LENDO O ENSAIO NA ÍNTEGRA:

https://observalinguaportuguesa.org/eduardo-lourenco-e-os-lusiadas/


RESULTADOS DAS PROVAS DE FEVEREIRO DE 2024



PORTUGUÉS ELEMENTAL:

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PORTUGUÉS MEDIO:


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PORTUGUÉS SUPERIOR:


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